quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Desejo, dar pra disfarçar?



O olhar do amante continua sendo importante, mas não se trata mais de um eu que depende do outro para existir. Tem-se, agora, um ser feminino decidido, lúcido, consciente, sujeito de suas atitudes. O outro finge que não o olha, mas, seu “olhar fugidio” não se sustenta diante dele. Segundo Marilena Chauí (2006) o olhar é capaz de trazer à tona os sentimentos da alma humana. Desse modo, pode-se conceber que o amado não corresponde ao olhar feminino para não se expor.

Em contrapartida, o eu-lírico possui em seu olhar uma percepção capaz de interpretar os sentimentos do outro através da permuta de olhares, olhar este que não se mantém passivo diante da realidade, pois sente-se desejado e por isso,desafia o outro a olhá-lo, enquanto que o eu-lírico de outros poemas aqui analisados, mostra-se passivo, descreve, se encanta, admira seu Alentejo, contempla o amante, fazendo dele a razão de sua existência. Mas, aqui não há somente a contemplação, há também uma descoberta dos defeitos do outro (que não tem atitude).

Esse olhar é o que desde sempre exprime e reconhece forças e sentimentos internos, tanto no próprio eu-lírico, que deste modo se revela, quanto no ser masculino, com o qual estabelece uma relação conflituosa. O olhar “saltitante” do amante, apesar de não fixar-se, é percebido. Note-se que esse olhar já não transmite a indiferença que tanto angustiava o eu-lírico de outros versos. Ele transmite o desejo. Nesse sentido, Alfredo Bosi (2006, p. 78) afirma que:


O olhar conhece sentindo (desejando ou temendo) e sente conhecendo. Está implantado na sensibilidade, na sexualidade: sua raiz mais profunda é o inconsciente, sua direção é atraída pelo imã da intersubjetividade. O olhar condensa e projeta os estados e os movimentos da alma. Ás vezes a expressão do olhar é tão poderosa e concentrada que vale por um ato.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Visitou, comentou!!!