Em 2006 tive a experiênca maravilhosa de passar 10 dias na capital do nosso país, Brasília, em um congresso Nacional dos estudantes de Letras. Entre muitas palestras e passeios que não estavam na programação (rsrsrsr) tive o imenso prazer de ouvir o poeta e jornalista Fabricio Carpinejar declamar seus poemas. Me apaixonei à primeira vista pelo seus escritos e até hoje faço questão de comprar todos os seus livros e devorá-los com bastante entusiasmo. Ele nos faz rir, refletir e chorar também. Quem não conhece as suas crônicas, poemas e tantos outros escritos deste escritor tão versátil, aconselho que leia e sei que serão fisgados na primeira página.
Deixo com vocês uma crônica que foi publicada em seu livro O amor se esqueçe de começar. Li pela primeira vez em 2009, mas fazendo uma releitura este ano percebi o verdadeiro sentido destas palavras, pois vivenciei os sintomas de um amor virtual.
Amor virtual
Acredito em amor virtual. Não
adianta se valer do ceticismo da carne e dizer que a distância engana,
que as pessoas não se conhecem, que pode haver desfeita e desilusão.
Acredito em amor virtual. Pois nada é mais expansivo e verdadeiro do que
se conhecer pela linguagem. Nada é mais íntimo e pessoal do que se doar
pela linguagem.
Não serei convencido da frieza do
relacionamento na web, da articulação de fachadas e pseudônimos, da
ironia e dos subterfúgios denunciados nos chats. O que acontece na
internet reproduz a vida com seus defeitos e virtudes, não se pode
exagerar na desconfiança. O amor virtual é tão real quanto o sangue. Não
preciso enxergar o sangue para verificar se ele corre. O amor virtual
trabalha com a expectativa e a ansiedade. Como um teatro que se faz de
improviso, com a ardência de ser aceito aos poucos, sem o temor e os
avisos em falso do rosto.
Na correspondência há a esperança de ser
amado e de entreter as dores. A esperança aceita tudo, transforma todo
troco em investimento. Um gesto de redobrada atenção, uma resposta
alentada, uma frase diferente, um cuidado excessivo, a cordialidade do
eco e o amor se instala.
Não há o julgamento pelas aparências
(que se assemelha a uma execução sumária), mas o julgamento em função do
que se imagina ser, do que se deseja, do que se acredita. São raros os
momentos em que se pode fechar os olhos para adivinhar. Adivinhar é
delicioso – é se dedicar com intensidade às impressões mais do que aos
fatos.
Alguns dirão que é alienação permanecer
horas e horas teclando ou diante de uma câmera e do computador. Mas é
envolvimento, amizade, compromisso. É pressentir o cheiro, formigar os
ouvidos, seduzir devagar. Não conheço paixão que não ofereça mais do que
foi pedido.
Quem reclamava da ausência de
preliminares deve comemorar o amor virtual? Nunca se teve tanta
preliminar nas relações, rodeios, educação. Fica-se excitado por falar.
Devolve-se à fala seu poder encantatório de persuadir. Afora o espaço
democrático: um conversa e o outro responde. Findou o temporal de um
perguntar para outro fingir que está ouvindo.
No amor virtual, a linguagem é o corpo.
Dar a linguagem é entregar o que se tem de mais valioso. É esquecer as
roupas na corda para escutar a chuva. É recordar de memórias imprevistas
como do tempo em que se ajudava à mãe a contornar com o garfo a massa
do capeletti. Conversa-se da infância, dos fundos do pátio, do que ainda
não se tinha noção, sem ficar ridículo ou catártico. Abre-se a guarda
para olhares demorados nos próprios hábitos. A autocrítica se converte
em humor; a compreensão, em cumplicidade. É uma distração para
concentrar. Uma distração para dentro. Vive-se com mais clareza para
contar e se narrar.
Amor virtual é conhecer primeiro a
letra, para depois conhecer a voz. A letra é o quarto da voz.
By Fabrício Carpinejar, jornalista e
escritor.

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